Comprar equipamento nacional ou importado?

Quando escrevo este artigo, o dólar chegou ao patamar mais baixo desde 2001, valendo R$ 2,02*. Com a globalização e o dólar baixo, temos visto nossas lojas serem invadidas por produtos de sonorização importados. Alguns deles tem mais qualidade, mais recursos e estão até mesmo mais baratos que os similares nacionais – mesmo com impostos de importação e tudo o mais. Ainda assim, há uma dúvida enorme se, na hora de gastarmos nosso suado dinheiro, vale mesmo a pena comprar um importado. "Será que fiz realmente uma boa compra?" é uma pergunta comum de se ouvir.  

* Nota de revisão: câmbio do dólar comercial em R$ 2,02 em 22/Out/2007. Em 13/Mar/2008, está cotado a R$ 1,70!

Vamos imaginar a compra de um carro. Um importado pode ser "muito mais carro" que muitos nacionais, mesmo com preço semelhante. Tem mais qualidade, mais comodidade, talvez até mais durabilidade que um carro nacional de mesma categoria e preço parecido. Ainda assim, qualquer pessoa "normal" (aqueles que fazem contas no final do mês, pois quem não faz conta não se preocupa com isso) também levará em conta a marca, o suporte do fabricante, a assistência técnica e a disponibilidade de peças para o veículo. Não se compra um carro apenas pela sua qualidade ou preço. Leva-se em conta outros fatores pois corre-se o risco de ficar sem peças, ou então "refém" de uma única assistência técnica (e seus preços exorbitantes), ou outro problema qualquer.

Em sonorização, essas mesmas perguntas que os compradores de um carro fazem também se aplicam, mas existem segmentos em equipamentos de som tão distintos que a avaliação precisa levar em conta essas particularidades.

Em microfones, temos apenas dois fabricantes nacionais, LeSon e TSI (esta na verdade não fabrica, importa produtos). Em contrapartida, são dezenas os fabricantes estrangeiros, indo dos famosíssimos (Shure, AKG, Audio-Technica, Sennheiser, Beyerdynamics, entre outros) aos menos conhecidos (Groovin, JTS, Superlux, Karsect, Sionika, Yoga, etc – com alguns bons e outros deixando a desejar). Entretanto, quando levamos em consideração a compra de um microfone (com ou sem fio), raramente consideramos a existência ou não de assistência técnica, de peças de reposição, facilidade de conserto. Estamos muito mais preocupados com a qualidade do mesmo que até "esqueçemos" de olhar as condições de garantia.  Tanto é que os fabricantes nacionais tem assistência técnica em São Paulo apenas, e de 6 meses apenas, da mesma forma que os microfones importados. "Quebrou? Então joga fora!" é algo até natural de se ouvir. Em muitos casos vai sair mais barato substituir o microfone por um novo que tentar o conserto (não raro, peças de reposição custam quase o valor de um novo).

Assim, no segmento "microfones" os consumidores estão mais preocupados é com a qualidade e o preço que vão pagar – e isso os importados dão um "banho" nos nacionais, até pela quantidade de modelos disponíveis. Apesar de existir um ou outro modelo nacional de destaque, as opções importadas são tantas e com preços tão bons que não resista – aproveite o dólar baixo e compre um importado. Se um importado de "grife" couber no orçamento, nem pense: compre logo! Se for um desconhecido, compare bem, inclusive com os nacionais, e compre o que acreditar ser melhor.

Em caixas acústicas as coisas já mudam de figura. Uma caixa importada (JBL, D.A.S., Alto, Mackie, etc) em geral é bem melhor que as nacionais. Os falantes da Beyma e RCF, que equipam muitas dessas caixas são reconhecidos no mundo todo pela qualidade sonora. Então quer dizer que vale mais a pena uma importada? Sim, em geral vale, mas… Quando dá problema, é literalmente um problemão. Uma caixa importada pode ter um som maravilhoso, até o dia em que o driver estourar. Conseguir um reparo original para caixas importadas é uma tarefa difícil e complicada. Eles existem no eixo Rio-São Paulo, mas fora isso, só com muita pesquisa, muitos telefonemas e certeza de preços caríssimos. E se no lugar do driver original adaptarmos um nacional, vamos mudar o som original da caixa – com certeza para pior.

Nesse segmento, o mercado se divide. Quem está perto de grandes centros pode comprar importados tranquilamente, mas para quem está longe, talvez seja melhor procurar uma caixa da Attack, Selenium, Staner, Leacs, Antera, Ciclotron e Oneal, entre outras. São empresas nacionais, que usam componentes nacionais e tem ampla rede de assistência no país inteiro. Isso vale tanto para caixas ativas quanto passivas. Além disso, existem bons projetos nacionais que podem nos atender muito bem, talvez não tão boas quanto uma importada mas ainda assim de excelente qualidade. Eros, Selenium e Snake são exemplos de falantes que são exportados e bem aceitos no exterior.

Já quando falamos em amplificadores, é raro encontrar um amplificador importado em alguma loja. Isso porque algumas marcas brasileiras – Studio R e Hotsound, entre outras – já são tão boas quanto qualquer importada. Aliás, essas duas marcas citadas estão exportando uma significativa parcela de sua produção para o exterior, incluindo EUA e Europa,  onde tem conseguido impressionar o exigente mercado. São excelentes escolhas, e não vale a pena gastar dinheiro na compra de um importado e correr riscos na reposição de peças.

Mas se em relação aos amplificadores os brasileiros estão bem, quando falamos em periféricos… Apesar de existirem alguns periféricos nacionais muito bons, a indústria estrangeira tem centenas de produtos muito melhores que os nossos, por custo semelhante. A Behringer é um exemplo disso, com equipamentos com muito mais funções que os equivalentes nacionais e outros que sequer tem equivalentes no Brasil. Nesse segmento, o mercado é todo voltado para os importados, em situação muito parecida com os microfones. Se houver possibilidade de se comprar um periférico das melhores marcas (dbx, Rane, Presonus, Yamaha, etc), nem pense – aproveite o dólar baixo. Behringer e Alto também são boas compras – e talvez a única alternativa, se o equipamento não tem similar nacional, como os Ultracurve da Behringer. Mas evite periféricos de marcas "desconhecidas", ou pelo menos não deixe de compará-los com os nacionais.

Finalmente, chegamos às mesas de som. Se sua intenção é uma mesa digital, não tenha dúvida: compre uma importada, pois não existe tal tecnologia ainda nos fabricantes brasileiros. Quanto às mesas analógicas, praticamente só temos dois fabricantes brasileiros com uma linha de produtos que vai de pequenas mesas a grandes consoles: Staner e Ciclotron. São as mais fáceis de consertar (qualquer técnico de eletrônica é capaz) e contam com a maior rede de assistência técnica do país. São mesas que trabalham com canais modulares, indepentes. Nem é necessário o esquema eletrônico para consertar: se um canal não funciona, basta comparar o funcionamento dos seus componentes com os de um canal que esteja funcionando.

Mesas importadas costumam ser muito melhores que as nacionais. Algumas nacionais são mais famosas pelos "vazamentos" que pela qualidade sonora. A diferença de qualidade é "audível" – a favor das importadas. O problema é a manutenção das importadas. É somente nas oficinas autorizadas – mais comum nos grandes centros – e sabendo-se que as peças vão demorar e custar muito caro. E muitas vezes o conserto acaba não compensando o gasto.

Mas se em caixas de som a diferença entre os equipamentos nacionais e os importados é grande, em mesas de som a diferença é enorme. É tanta diferença que é melhor nem pensar: sendo possível, compre uma importada. Os preços estão tão próximos que é muito melhor ter uma mesa com mais qualidade sonora e arriscar uma manutenção difícil em caso de problema que ter um equipamento fácil de consertar mas com som muito pior. Aliás, um grande fabricante nacional continua promovendo todo seu marketing a partir dessa premissa: "fácil de consertar". Mas a qualidade de som…

A Staner tem tentado igualar a qualidade dos equipamentos importados em seus novos consoles Pallas, Opera e Veritas. O segredo? Componentes importados, montagem no Brasil. Só que são mesas caras, de grande porte, com preços parecidos com os importados ou até mais altos.

Se der para comprar uma mesa Mackie, Yamaha, Allen& Hetch ou Soundcraft, nem pense. São mesas excelentes e muito duráveis, problemas técnicos serão muito raros. Uma Alto, Behringer, Alesis, Tapco, Phonic, Samson, Roxy também são boas compras (mas compare: algumas marcas são melhores que outras), e compensam mais as nacionais. Outras marcas menos conhecidas devem ser atentamente comparadas, inclusive com as nacionais.

E viva o dólar baixo. Vamos aproveitar e ir às compras!

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Revisado em 13/Mar/2008

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