Estrutura de Ganho – Parte 1 – Conceitos

Todo operador de som, em algum momento, já deve ter enfrentado algum dos problemas abaixo:

– distorção em qualquer ponto do sistema

– luz de Clip (Peak ou Overload, OL) acendendo em algum dos equipamentos

– queima de componentes do sistema (canais, amplificadores, falantes, etc)

– ruído (hhhiiisss) muito alto quando o pregador faz uma pausa entre as palavras

– os leds da mesa de som (ou outro equipamento) não acendem, ou acendem todos, até a luz de Clip.

– algum componente não dá todo o rendimento (volume) esperado

– a gravação fica com volume muito baixo e/ou com muito ruído.

-a gravação fica muito alta e/ou com o som distorcido

Estes são todos problemas causados por uma montagem incorreta da estrutura de ganhos de um sistema de sonorização.

Expressão complicada esta, "estrutura de ganhos". Remete-nos logo ao ajuste de ganho (Gain ou Trim) existente em mesas de som. Na verdade, a palavra "ganho" tem um sentido mais amplo, no sentido de nível de volume. Engloba desde o ajuste do Trim como também faders de mesas e potenciômetros de volume existentes em diversos aparelhos de um sistema de áudio (praticamente todo equipamento tem algum tipo de controle de volume). Até mesmo as diversas luzes, led´s e VU´s existentes nos equipamentos não estão lá à toa, mas sim para nos ajudar a montar a correta estrutura de ganhos.

Mas o que é, afinal, esta tal de estrutura de ganhos? Para responder isto, precisamos nos lembrar que, da captação por um microfone até chegar ao alto-falante, o que percorre os circuitos elétricos dos diversos equipamentos de áudio é uma coisa só: corrente elétrica!

Ajustar a estrutura de ganhos é fazer com que a corrente elétrica do sinal de áudio esteja sempre compatível entre os diversos aparelhos do caminho, e ainda no melhor nível de trabalho possível. Um excesso de corrente causará distorção e até mesmo queima de componentes. Por outro lado, um sinal elétrico muito baixo traz diversas consequências ruins, como degradação da qualidade sonora causada pelo ruído de fundo inerente aos próprios equipamentos.

Em um sistema de sonorização formado por diversos equipamentos, é preciso encontrar um valor para a corrente elétrica que seja compatível em todos os equipamentos, e que também esteja próxima do ideal em todos esses aparelhos. Descobrir e combinar tais valores não é uma tarefa fácil, como veremos.

Mas o esforço vale a pena, pois há inúmeras vantagens. Bem ajustado, conseguimos o máximo de rendimento dos nossos equipamentos, com o máximo de qualidade sonora. Além disso, o correto ajuste de ganhos nos permite trabalhar dentro dos limites normais dos componentes, prolongando a vida útil dos mesmos. Quem não quer um sistema assim?

Para entender como funciona a estrutura de ganhos, temos adiante uma jornada longa e difícil. Muitos conhecimentos dos fundamentos de áudio são exigidos, o que por vezes torna o estudo complicado e maçante.

Níveis de sinal em microfones e instrumentos musicais

Para iniciar nosso caminho, é necessário conhecer bem os níveis elétricos (os valores de corrente elétrica) gerados pelas nossas fontes sonoras. Isto já foi explicitado de forma satisfatória no artigo "MIC IN e LINE IN em mesas de som: uma tremenda confusão"

http://www.somaovivo.mus.br/artigos.php?id=185

Solicitamos que, antes de continuar, seja feita uma (re)leitura neste texto. Isto porque, para a correta estrutura de ganhos do sistema, é absolutamente necessário que cada uma das fontes sonoras seja ligada à mesa de som da forma correta. Se esta etapa for feita de forma errada, teremos sérios problemas, difíceis de corrigir depois.

Decibéis

Outro fundamento necessário para entender a estrutura de ganhos é conhecer os decibéis. As variações de corrente elétrica são calculadas em dB, logo toda a explicação de estrutura de ganhos é baseada no estudo dos decibéis.

Para tanto, aconselhamos a outra parada para a (re)leitura do artigo "O deciBel e seus mistérios":

Parte 1 – http://www.somaovivo.mus.br/artigos.php?id=143

Parte 2 – http://www.somaovivo.mus.br/artigos.php?id=144

Mas para não ficar chato pelo excesso de idas e vindas, vamos dar uma pequena explicação sobre decibéis, de forma que quem já tem um bom conhecimento possa continuar a leitura.

O deciBel não representa um valor (unidade ou dimensão, etc), como os metros, os quilos e os litros. Ele é a expressão de uma relação entre dois valores, baseados em logaritmos. São extremamente úteis quando estamos diante não de grandezas lineares (1,2,3,4…), mas sim de grandezas exponenciais (2,4,8,16,…).

A fórmula básica é a seguinte:

dB = 10 x log (Valor1/ Valor2)

Mas isso não quer nos dizer nada. Para sabermos do que se trata, precisamos de uma referência (que será usada no lugar do Valor2). A partir da variação da referência, teremos diversos tipos de decibéis. Por exemplo:

dB => quando encontrarmos o termo dB sem outra especificação, ele será utilizado para exprimir a razão entre dois valores quaisquer. Na verdade, quem dirá o que os dB representam sempre será o contexto em que o termo aparece. Por exemplo, em estrutura de ganhos, representa uma variação de tensão elétrica. Em amplificadores, mostrará a relação entre duas potências. Em medições de volume, representa a variação de pressão sonora.

dBm => representa a potência de um sinal elétrico, geralmente utilizado quando se trata de potência de ordem de miliWatts. O dBm é baseado em uma referência, que é 1 miliWatt, ou seja, 0,001 Watt

10 x log (Potência/0,001)
0 dBm equivale a 1mW ou 0,001W

Atente: 0 dBm equivale a 1mW, que é a potência que encontramos quando aplicamos uma tensão de 0,775Volts sobre uma impedância de 600 Ohms.

dBW => também representa a potência de um sinal elétrico, mas é utilizado quando se trata de potências de ordem de Watts. Usa como referência o valor de 1 Watt:

10 x log (Potência/1W). 
0 dBW equivale a 1W.

Note que, por conveniência de cálculo, existe um "tipo de deciBel" para quando trabalhamos com potências pequenas e outro para quando trabalhamos com grandes potências.

dBV => representa a voltagem de um sinal elétrico. Utilizado quando se trata de voltagens na ordem de Volts. Usa como referência o valor de 1 Volt

20 x log (Voltagem/1V).
0 dBV equivale a 1V em qualquer impedância

Observação: quando se trata de voltagem, o multiplicador é 20, e não 10. O uso do multiplicador 20 na fórmula para achar o nível em dB de tensões está ligado ao fato da potência elétrica serem proporcionais ao quadrado das tensões e a propriedade dos logaritmos que diz: log(x²) = 2log(x).

dBu => representa a voltagem de um sinal elétrico, mas agora na ordem dos miliVolts. Este é um dos mais importantes valores utilizados em equipamentos de áudio. A referência é 775 miliVolts (0,775 Volts).

20 x log (Voltagem /0,775V).
0 dBu equivale a 0,775Volts em qualquer impedância.

Existe uma relação entre o dBu e o dBm. Apesar do dBm não ter uma relação direta com a voltagem ou com a impedância, quando temos uma tensão de 0,775 V aplicados sobre uma carga de 600 Ohms, teremos, então, um miliwat que é o mesmo que 0 dBm. Assim, quando a impedância do sistema é de 600 Ohms, então dBu = dBm.

dB VU => VU refere-se a Volume Unit, unidade de volume. Veremos mais sobre ele abaixo, quando estudarmos sobre os VU´s. O valor de 0 dB VU pode se referir a três valores:

–  0 dB VU = +4dBu, ou 1,23Volts

–  0dB VU = 0dBu, ou 0.775Volts.

– 0 dB VU = -10dBV, ou 0,316V

Na verdade, na maioria das vezes o 0 dB VU se refere níveis nominais de trabalho dos equipamentos. Mas isto não é uma regra, pois há grandes disparidades, causadas pela falta de padronização, como veremos depois.

dB SPL => refere-se ao nível de pressão sonora, ao volume de som que efetivamente ouvimos. O valor de 120 dB SPL é referente ao limiar da dor, onde o som é tão forte que chega a doer o ouvido. Já o 0 dB SPL equivale ao limiar mínimo da audição humana.

Ainda existem diversos outros tipos de decibéis, quase tantos quanto as letras do alfabeto! Os vistos acima são os utilizados no estudo da estrutura de ganhos e no trabalho do dia-a-dia do profissional de áudio.

Nível Nominal de Trabalho

Todo equipamento de áudio tem um nível nominal de trabalho. É a tensão da corrente elétrica na qual o aparelho trabalha melhor, quando suas características chegam ao máximo ou na melhor relação sinal/ruído (mais sobre isto abaixo). 

Existem três padrões:

Equipamentos que trabalham com 0 dBu (0,775Volts),
Equipamentos que trabalham com +4 dBu (1,23Volts),
Equipamentos que trabalham com -10dBV* (0,316 Volts).

Um problema muito sério é que não há padronização. A maioria dos equipamentos profissionais de áudio segue o padrão +4dBu, mas há aqueles que usam 0 dBu. Já a maioria dos equipamentos (mesmo os profissionais) fabricados nas décadas de 1970 e 1980 usa como padrão o valor de -10dBV. Por outro lado, este é o valor adotado pela indústria de consumo de hoje (CD Players, DVD Players, etc).

Guarde isto: em geral, equipamentos com conectores RCA têm tensão nominal em -10dBV, sejam eles modernos ou antigos.

Essa falta de padronização gera grandes problemas. Uma mesa de som que tem saída em nível nominal em +4dBu, quando manda tal sinal para um periférico que tem sua entrada ajustada para -10dBV, provavelmente irá provocar o clipamento.

Para evitar este tipo de problemas, alguns fabricantes resolveram isto colocando chaves de seleção de nível de sinal nos aparelhos, permitindo ao usuário escolher trabalhar no equipamento com +4dBu ou -10dBV.

Também cabe alertar que existe uma certa confusão sobre isto feita pelos próprios fabricantes. Muitos equipamentos tem suas entradas e saídas especificadas em valores de dBm (representando a potência elétrica – Watts, não a voltagem). Isto não é problema, pois conhecendo a potência e a impedância, é possível calcular a tensão. Se a impedância for 600 Ohms, situação em que dBm = dBu, nem é preciso fazer contas. De qualquer forma, não é mais interessante facilitar para o usuário e padronizar tudo em uma unidade apenas?

Além disso, muitas vezes o que ocorre é uma confusão dos próprios fabricantes entre dBV e dBu. Já vimos muitos aparelhos especificados errado:

-10dBu (0,245V) ou +4dBV (1,58Volts)
em vez de -10dBV (0,316V)  ou +4dBu (1,23V)
 
Pode parecer pouco, mas às vezes é a diferença entre clipar e não clipar. E apesar de quase sempre estas representações estarem erradas, realmente pode haver equipamentos que trabalham com tais valores como padrão, já que não há padronização!

De qualquer forma, é importante saber que quase sempre (depende do tipo de aparelho) os equipamentos trabalham sem problemas com uma faixa de sinais muito grandes, tanto abaixo da tensão nominal quanto acima dela. Mas a tensão nominal (nível nominal) representa a melhor faixa de trabalho do equipamento.

Ruído de fundo e relação sinal/ruído (Signal-to-noise ratio, S/N ou SNR)

Todo equipamento, qualquer que seja, introduz um pouco de ruído no áudio. Não nos referimos aos ruídos produzidos por um cabo ruim, nem ao ruído de uma interferência qualquer. É o ruído (também chamado de ruído de fundo) da própria eletrônica, seja ela digital ou analógica, a base de transistores ou válvulas (estas, aliás, mais ruidosas que os transistores). Até mesmo componentes eletrônicos passivos como resistores e capacitores introduzem algum ruído no sinal original.

O ruído é causado pela própria agitação dos elétrons dos materiais que compõem os componentes eletrônicos, fios e cabos. Ao atravessar estes materiais, os elétrons da corrente elétrica de áudio são "perturbados" pelos elétrons dos átomos, e temos aí o ruído. Na maioria das vezes o valor é mínimo, quase desprezível, mas como alguns equipamentos de áudio (microfones, por exemplo) trabalham com valores de tensão muito pequenos, tal pertubação começa a ter sua importância.

Como, para uma operação minimamente aceitável é necessário que o som não se confunda com o ruído (esteja acima do valor do ruído), este acaba estabelecendo o limite inferior de nível de sinal com o qual o aparelho pode operar. Na verdade, quanto mais longe estiver o sinal do ruído, melhor, sendo 30dB o valor considerado como mínimo para uma sonorização de boa qualidade, e 20dB para uma sonorização aceitável.

Na figura abaixo, temos a exemplificação disto: um sinal com boa relação S/R e um sinal com baixa relação S/R, onde o áudio é confundido com o ruído.

Nos manuais dos aparelhos de áudio, sempre encontramos especificada a Relação Sinal/ Ruído (S/N ou SNR). Ela mostra a diferença entre o nível nominal de trabalho e o ruído encontrado.

Por exemplo (valores obtidos nos respectivos manuais):

– Amplificador StudioR Z700: 105dB em relação à potência máxima (0 dBu, 0,775V. No caso, o nível nominal de trabalho corresponde ao máximo de potência que o aparelho pode prover).

– Mesa Ciclotron CSM 12 IS R: 82dB em relação às saídas Master (+4dBu).

Como vimos, tais valores são muito grandes, ou seja, o nível de ruído de tais equipamentos é imperceptível. Mas um problema sério é que os ruídos dos diversos equipamentos de um sistema de som são cumulativos (ruído do microfone +ruído da mesa + ruído equalizador + ruído (…) + ruído amplificador = ruidão!). Se os ganhos forem bem ajustados, todo este ruído permanecerá ainda imperceptível. Entretanto, ajustes errados podem fazer com que o ruído "apareça".

Por exemplo, quando ouvimos, em uma caixa de som, aquele "hhhhiiissss" contínuo, mesmo que não haja nenhuma fonte sonora no momento (por exemplo, nas pausas que um orador faz durante uma palestra ou pregação), estamos ouvindo na verdade o ruído de fundo dos aparelhos do sistema de sonorização, e isto acontece porque em algum momento a estrutura de ganhos foi ajustada errada, e o ruído existente foi indevidamente amplificado.

Apesar de ser impossível se livrar completamente do ruído (é inerente à eletrônica dos aparelhos), como um bom ajuste de estrutura de ganhos, conseguimos fazer com que o ruído seja imperceptível, como deve ser.

Clip, clipping e distorção

Se o ruído de fundo estabelece um patamar mínimo para o nível de sinal que o equipamento pode manejar, por outro lado há também um limite máximo para o sinal de áudio, limite este que ultrapassado trará consequências muito ruins, como a distorção e, em alguns casos, até a queima de componentes do sistema de áudio.

Repare a figura acima. As ondas de cor azul e preta são ondas sonoras normais, que trabalham dentro da especificação dos equipamentos, produzindo um som agradável e nenhum problema.

Mas se começarmos a aumentar a amplitude (volume) dessas ondas, elas poderão exceder o máximo que os componentes conseguem manejar sem danos. Atingindo este ponto, a onda começa a ser ceifada (no inglês: clip, clipping). É isto que acontece com as ondas vermelha e laranja da figura acima, ou o mesmo abaixo (comparação entre uma onda que alcança o clip e outra semelhnte, mas que não clipou.

Quando isto acontece, temos a distorção. É a temível formação de ondas quadradas. Além de péssima de ser ouvida, é a maior razão de queima de componentes, tanto os falantes quanto os próprios equipamentos. Deve ser evitado a todo o custo, e uma correta estrutura de ganhos permite resolver este problema.

LED’s e VU’s

Mas como saber se a onda está clipando ou não? Esta é uma pergunta muito importante. Muitos poderiam responder "pela distorção no som". Apesar de ser uma resposta correta, nem todos os operadores de som tem uma grande sensibilidade à ocorrência de distorção no som e conseguem detectá-la de ouvido. Para resolver este problema, surgiram circuitos detectores de onda quadradas, que analisam constantemente a onda de áudio e, em caso de clipamento, alertam o usuário através de algum indicador. É a famosa luz de CLIP (também pode aparecer como  Peak, PK, Overload, OL), uma das melhores amigas do operador de som.

Mas para entender toda esta história, vamos voltar um pouco no tempo, algumas décadas atrás.

Saber a quantidade de sinal de áudio que está passando por um equipamento sempre foi de grande importância. Já na década de 1930 surgiram os voltímetros (medidores de voltagem), pequenos ponteiros que se movimentavam com maior ou menor intensidade à medida que mais ou menos tensão passava pelo equipamento.

Através daquelas agulhas poderíamos saber a tensão a que um circuito elétrico estava submetido (no caso de energia elétrica, 110V ou 220V ou outra tensão qualquer) e, em áudio, se havia sinal chegando no equipamento e/ou sinal saindo dele. Esta foi a função inicial, e ajudava aos operadores a detectar onde estavam os problemas. Até hoje, muitos equipamentos dispõem de uma luz de sinal, que tem a mesma função, saber se há sinal de áudio chegando no canal de uma mesa de som, por exemplo. Pela variação da luz (ou da agulha) é até possível saber se está chegando (ou saíndo) muito ou pouco sinal, mas não é possível mensurar a quantidade.

Mas alguém percebeu que, se uma escala fosse feita, o voltímetro serviria também para dizer a quantidade de sinal e mesmo alertar quando o equipamento começaria a entrar em regime de clipamento. 

Daí surgiram os primeiros VU´s analógicos. O nome VU vinha do fato deles se referenciarem a uma unidade de volume, que seria o ponto "zero" (a referência de volume, "volume unit" no inglês). O ponto zero (em alguns equipamentos, chamado diretamente de "U") seria igual ao nível nominal de trabalho do equipamento. Qual o valor deste ponto? Bem, como já vimos, até hoje não existe uma padronização, apesar da maioria dos equipamentos profissionais já ter adotado o padrão +4dBu. Na dúvida, consulte o manual.

Os VU´s então encheram os equipamentos de áudio. Eles eram muitos comuns nos gravadores de fita (cassete ou rolo), pois este tipo de fita distorce facilmente, e monitorar o sinal para que o mesmo não ultrapassasse o 0 dB VU era uma grande necessidade.

Só que os VU´s tinham alguns problemas. Além de caros, são grandes, ocupando grande espaço no equipamento. Com o avanço da tecnologia surgiram os Led´s, diodos emissores de luz, muito mais baratos e que ocupam muito menos lugar, possibilitando equipamentos mais baratos e compactos.

Surgiram assim os VU´s Bargraph, como o abaixo:

Como voltímetros, os VU´s Bargraph tem um comportamento um pouco diferente dos VU´s tradicionais, de agulha. Estes tem grande inércia (dificuldade em movimentar a agulha), e por isto são lentos no agir. Já os led´s são muito rápidos. Isso causou uma grande diferença de comportamento, como mostrado na figura abaixo:

Note: por causa da inércia, os VU´s de agulha (linha preta) acabam representando melhor a intensidade do sinal (os valores médios), enquanto os VU´s Bargaph representam melhor os valores  instantâneos (em cinza).

Interessante notar que, em alguns casos, é melhor ter os valores instantâneos, enquanto para outras funções é melhor ter valores médios. Alguns aparelhos, inclusive, trazem os dois tipos de monitoração.

Mas há também outra diferença, na escala. Na época dos antigos VU´s tradicionais, por causa da dificuldade em responder aos picos de sinal, tudo acima do 0 dB VU era considerado uma área perigosa, sujeita a distorção, sendo destacada em vermelho. Neste caso, a melhor coisa que o usuário podia fazer era ajustar os controles para que o volume dos picos chegasse ao 0dB VU (o que na verdade correspondia a ultrapassá-lo um pouco). Pouquíssimos eram os VU´s analógicos como o da foto acima, que além de ter a escala ainda tinha uma luz de Peak.

Por outro lado, com os VU Bargraph, os fabricantes puderam implementar diversos indicadores (barras com 5, 7, 9, 12, 15, 20 leds indicativos do nível de sinal, quanto mais melhor). E, mantendo a analogia com os semáforos de trânsito, tudo abaixo do nível nominal é considerado seguro (verde), os valores acima do nível nominal devem ser vistos com atenção (amarelo) e a luz vermelha foi reservada para quando o nível de clip está próximo ou é atingido (evidente que não são todos os fabricantes que implementam desta forma).

Também cabe lembrar que as marcações existentes (no VU Bargraph acima, as marcas de -20, -10, -7, -5, -3, -1 e depois +1, +3 e +5) sempre se referem ao 0dB VU, devendo ser calculados, se necessário, em relação ao valor de referência (0 dBu, +4dBu ou -10dBV)

Headroom

Em relação aos equipamentos, chamamos de headroom a diferença entre o nível nominal e o nível máximo que um equipamento pode manejar antes de clipar. É a região em amarelo dos VU´s Bargraph.

Por exemplo, a mesa Ciclotron CSM 12 IS R pode trabalhar com até +21dBu nas suas saídas Masters antes de clipar. Como o nível nominal de saída é de +4dBu, a diferença (headroom) é de 17dB (como expressa a relação entre dois valores, é dB sem qualquer complemento mesmo).

Cada tipo de equipamento tem um headroom. Existem consoles que alcançam +31dBu nas suas saídas, tendo um headroom bem grande (27dB se nível nominal = +4dBu). Outros, comparativamente, tem pouco headroom. Amplificadores são construídos para ter headroom de 3dB (suportar um pico de até o dobro da sua potência RMS, não mais), enquanto um alto-falante tem headroom de 6dB (até 4 vezes mais potência que a sua potência RMS).

Faixa dinâmica

Se o ruído nos dá o limite inferior de nível de sinal que um equipamento pode manejar, e o clipping nos dá o limite superior, o intervalo entre essas faixas de valores é conhecida como faixa dinâmica.

A faixa dinâmica de um equipamento pode ser calculada com base na sua relação sinal/ruído (do limite mínimo até o nível nominal), somado com o máximo de sinal que o equipamento pode manejar (headroom).

Usando os mesmos exemplos acima, temos então:

Amplificador StudioR Z700:
=> 105dB em relação à potência máxima (relação sinal/ruído)
=> 3dB de headroom

Logo, temos faixa dinâmica total de 105+3 = 108 dB

Mesa Ciclotron CSM 12 IS R: 82dB em relação à saída Master (+4dBu).
=> 84dB em relação ao nível nominal (+4dBu)
=> 17dB de headroom

Logo, temos faixa dinâmica de 101dB

Mas o termo "faixa dinâmica" (ou simplesmente "dinâmica") não é utilizado apenas para equipamentos. Também o usamos para nos referir à variação de volume das nossas fontes de programas:  músicas, pregação, qualquer tipo de áudio sobre o qual o sistema de sonorização trabalhará.  Chamamos de faixa dinâmica, neste caso, a diferença entre menor e o maior volume  que possam acontecer nessa fonte. Por exemplo:

Pregação e voz: tem faixa dinâmica em geral de 10dB

Rock pesado: tem dinâmica em geral de 6dB (pouca variação de volume).

Jazz: tem dinâmica em geral de 20dB (média variação de volume)

Orquestra: tem dinâmica em geral de 30dB (muita variação de volume).

Observação: não confundir volume com variação de volume (dinâmica). Heavy metal trabalha com valores altíssimos, mas são altíssimos o tempo todo, com pouca variação de volume. Além disso, os valores apresentados acima são apenas de exemplo, deve ser visto caso a caso, música por música, pregador por pregador.

Resumo

A figura abaixo faz um bom resumo de praticamente tudo o que vimos acima:

O nível nominal de trabalho do equipamento é +4dBu.

O nível mínimo de sinal que o equipamento pode manejar é -95dB.

A relação sinal/ruído deveria ser calculada entre o valor de +4dBu e -95dBu (total de 99 dB), mas a figura já considera um "desconto", ou seja, já diminui 30dB referente a diferença entre o nível mínimo de sinal em relação ao ruído para termos uma sonorização de ótima qualidade. Poderia ter usado 20dB se a qualidade necessária fosse apenas aceitável.

Assim, o novo cálculo é feito entre +4dBu e -65dB, resultando em uma relação Sinal/Ruído de 69dB para uma ótima condição de trabalho.

O headroom é a diferença entre o nível nominal e o nível de pico, ou seja: 25dBu menos 4dBu, o que resulta em 21dB.

Já a faixa dinâmica vai do "piso" do ruído (já considerando os 30dB de "desconto") até o limite do sinal, antes de clipar. Logo, temos de -65dBu até +25dBu, o que resulta em 90dB de faixa dinâmica.

Um pouco de prática

Cansou? Então que tal um pouco de prática? Mas não precisa sequer levantar da cadeira do computador. Faça o seguinte:

– Abra o Windows Media Player (WMP) do XP ou Vista (ou qualquer player de música)
– selecione uma música qualquer para tocar.

Agora, faça o seguinte. Coloque o volume da caixa de som do computador no máximo, e o volume do WMP no mínimo possível, bem pouco mesmo. Se suas caixinhas de som forem daquelas "baratinhas", você escutará a música e um chiado. Este chiado é o ruído de fundo da caixinha.

Agora, faça o contrário. Coloque os volumes do Windows todos no máximo, e abaixe o volume da caixinha ao mínimo audível. O chiado desapareceu.

O próximo passo é aumentar todos os volumes do Windows (tanto o do WMP quanto o da placa de áudio, no controle ao lado do relógio), e também aumentar totalmente o volume da caixa de som. Caixas "baratinhas" provavelmente distorcerão. Note como o som fica quando sofre de distorção e abaixe rapidamente o volume, sob pena de queimar a caixinha.

Finalmente, ajuste os volumes (WMP, Windows e caixinha) de modo que você tenha o máximo de volume, mas sem distorção e sem ruído de fundo. Para isto, faça testes até encontrar o melhor posicionamento para os controles de volume.

Pronto, você acabou de aplicar, na prática, uma correta estrutura de ganhos.

E se suas caixas de som não distorceram nem produziram ruído de fundo, parabéns, você tem ótimas caixas, com ótima relação S/R, bastante headroom e excelente faixa dinâmica.

No próximo artigo, estudaremos os diversos tipos de equipamentos de áudio, e como podemos trabalhar com suas características para obter a melhor estrutura de ganhos.

 

4 Comments on "Estrutura de Ganho – Parte 1 – Conceitos"

  1. Artigo muito bom, bem completo e explicativo, só não consegui ver as imagens (pelo celular). Parabéns pelo ótimo trabalho.

  2. Show. muito claro e objetivo.

  3. Matéria muito bem explicada. Vou reler novamente pois gostei muito.

  4. Os artigos citados, com link, não existem mais. Dá erro 404.

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