O deciBel e seus mistérios – Parte I

Tudo começou por causa de uma característica do ouvido humano. Se chamarmos de "1" a menor quantidade de som que podemos perceber (menos que um alfinete caindo no chão – o chamado "limiar de audibilidade"), o maior som que percebemos é de incríveis um trilhão de vezes (1.000.000.000.000 – 1 seguido de 12 zeros) mais potência que esse "1". Esse é o chamado "limiar da dor", onde os sons deixam de ser percebidos – o que sentimos é dor mesmo no ouvido.

A partir disso, os engenheiros definiram o seguinte: se dissermos que o menor som que podemos ouvir é 0,000 000 000 001 (doze casas decimais) Watt/m², então o maior som que podemos ouvir é 1 W/m² (1 "watt acústico"* por metro quadrado). Se já havia um monte de zeros para nos preocuparmos, os engenheiros – só para complicar – ainda os colocaram depois da vírgula (mais isso teve um bom motivo, veremos adiante)! De qualquer forma, de um lado ou outro da vírgula, é zero demais para o gosto de qualquer um. Aliás, é zero demais até para as nossas calculadoras, em geral de 8 dígitos apenas.

* Watt é medida de potência, sempre. É usada em geral em equipamentos que dependem de energia elétrica para funcionar (um chuveiro elétrico costuma ter 4000 Watts, por exemplo). Convencionou-se chamar a potência de som necessária para fazer nossos ouvidos doerem de 1 "Watt acústico".

Mas como trabalhar com tantos zeros é muito complicado, alguém resolveu montar uma "escala". Para entender sobre escalas, vamos sair um pouco da Matemática e entrar na Geografia. Todo mundo já viu um mapa, um atlas, etc. Como é que eles fazem para um "pedação enorme do planeta" caber em alguns poucos centímetros? Os geógrafos utilizam uma escala, ou seja, uma convenção. Um único centímetro no mapa representa, por exemplo, 1.000.000 de centímetros (10 km). Um mapa de 15cm por 10cm representa, na verdade,uma área de 150Km por 100Km. Se quisermos fazer um mapa-múndi (do mundo inteiro), basta utilizarmos uma escala maior, algo como 1 para 1.000.000.000.

Após alguns testes, descobriu-se que as escalas baseadas nas operações matemáticas fundamentais (soma, diminuição, multiplicação e divisão) não eram suficientemente boas para esse tipo de uso. Até que alguém notou que estavam trabalhando com "potências" de som, e que existe uma função matemática chamada "potenciação" ou "exponenciação". Daí essa pessoa teve uma idéia muito interessante:

Se chamarmos o menor som que alguém pode ouvir de 1, podemos chamar esse som de 10 elevado a 0 (= 1)

Se chamarmos o maior som que alguém pode ouvir de 1.000.000.000.000, então podemos chamar esse som de 10 elevado a 12 (= 1 seguido de 12 zeros).

Ora, então porque não fazer uma escala baseada em potências de 10? Teremos na escala então valores entre 0 a 12 (que correspondem ao número de zeros da potência desses sons). Logo:

10 elevado 0 = 1 (o menor som audível – limiar de audibilidade)
10 elevado 1 = 10
10 elevado 2 = 100
10 elevado 3 = 1.000
10 elevado 4 = 10.000
10 elevado 5 = 100.000
10 elevado 6 = 1.000.000
10 elevado 7 = 10.000.000
10 elevado 8 = 100.000.000
10 elevado 9 = 1.000.000.000
10 elevado 10 = 10.000.000.000
10 elevado 11 = 100.000.000.000
10 elevado 12 = 1.000.000.000.000 (o maior som que podemos ouvir – limiar da dor)

Os engenheiros, por sua vez, acham que a conta correta é a seguinte:

10 elevado 0 = 1 "Watt acústico" (o maior som que podemos ouvir – limiar da dor)  
10 elevado menos 1 = 0,1
10 elevado menos 2 = 0,01
10 elevado menos 3 = 0,001
10 elevado menos 4 = 0,0001
10 elevado menos 5 = 0,000 01
10 elevado menos 6 = 0,000 001
10 elevado menos 7 = 0,000 000 1
10 elevado menos 8 = 0,000 000 01
10 elevado menos 9 = 0,000 000 001
10 elevado menos 10 = 0,000 000 000 1
10 elevado menos 11 = 0,000 000 000 01
10 elevado menos 12 = 0,000 000 000 001 (o menor som que podemos ouvir)

Na verdade, eles preferiram chamar de 1 "Watt acústico" a potência de som do limiar da dor por ela ser bem mais comum que o limiar da audição. Eu tenho um bebê em casa, e é incrível como esse "pingo de gente" consegue emitir 1 "Watt acústico" com tanta facilidade! Mas, para escutar 0,000 000 000 001 Watt acústico, eu tenho que entrar em uma câmara anecóica, um lugar completamente isolado dos ruídos exteriores. E não é todo mundo que tem um câmara anecóica em casa (são poucas no mundo todo), mas todo mundo tem bebês. Logo, esse é o motivo para se preferir trabalhar com os zeros "depois" da vírgula.

Mas nada disso importa. Porque em vez de trabalharmos com esse "monte de zero", trabalhamos com os valores de 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12. Viva!!! Bem mais fácil. Como tinham que colocar um nome bonito para essa escala, fizeram uma homenagem a Alexander Graham Bell, inventor do telefone. Nasceu assim o Bel (com um "l" só mesmo. No inglês, "bell" quer dizer sino, desses sinos de igrejas. Então colocaram com um único "l" para não confundir).

Assim, o menor som que podemos ouvir é "0 Bel", e o maior som que podemos ouvir é "12 Béis". Quanto mais próximo de "0 Bel", menos potência sonora (no sentido de volume) tem o som, e quanto mais perto de "12 Béis", mais perto estamos de ficarmos com o ouvido doendo.

Agora vamos falar de Português. Tem engenheiro que fala "Béis", outros falam "Bels", uns escrevem com "B" maiúsculo, outros com "b" minúsculo. Todo engenheiro tem que saber fazer conta, mas nem todos sabem muito de português ( língua complicada mesmo). Pelas nossas regras gramaticais, o plural de palavras terminadas em "l" é "is" – papel (papéis), hotel (hotéis), pastel (pastéis). Então, o certo seria "béis". Mas alguns argumentaram que "Bel" se refere a um nome próprio estrangeiro, e então o plural deveria ser Bels mesmo, e sempre com letra maiúscula. A confusão está armada, e hoje tem gente que escreve de um monte de jeito, béis ou Bels, Béis ou bels. Mas o nosso dicionário Aurélio se encarregou de dar um ponto final nisso tudo: tanto faz de um jeito quanto de outro, todas as formas estão certas e pronto! Mas a abreviação é sempre com "d" minúsculo e com "B" maiúsculo – dB.

Um dia, um engenheiro tentou explicar para a irmã dele de 8 anos de idade que o menor som que alguém pode ouvir é "zero Béis", e ela retrucou que "Mas zero não representa nada? Se é nada, como eu posso estar ouvindo alguma coisa?" Outros engenheiros passaram a ter o mesmo problema ao explicar isso para os irmãos, tios, primos, avós, e como ninguém (fora outros engenheiros) agüentava a demonstração de tanto zero, eles tiveram que procurar alguma outra forma de explicar isso melhor.

Além disso, outro problema que eles estavam enfrentando é que de um valor de Bels para outro, a percepção humana dos sons é bem diferente mesmo. Por exemplo, se 6 Béis representa uma conversação normal entre duas pessoas, 7 Bels já representa o barulho típico dentro de uma fábrica, com várias máquinas ligadas. Apesar de serem números "próximos" um do outro, as potências sonoras representadas são muito diferentes (na verdade, são 10 vezes maiores – é uma potência de base 10). Assim, os engenheiros começaram a usar casas decimais nos Béis, ou seja, 6,1; 6,3; 6,7, e pronto, a confusão estava formada de novo entre menos entendidos de Matemática. E haja reclamação!

Até que, não agüentando mais, os engenheiros resolveram dar um basta às reclamações. Para satisfazer a turma que não gosta de casas decimais, passaram a chamar o "bel" de deciBel (plural: deciBéis ou deciBels, ou decibéis ou decibels, mas dB para os íntimos) e colocaram um zero a mais (multiplicaram por 10). Assim, a nossa escala passou a ser de 0 a 120 deciBéis. Escrever 65 dB é a mesma coisa que escrever 6,5 Béis, 120 dB é o mesmo que 12 Bels, e zero dB é também zero Bel. Não precisa mais de "vírgula alguma coisa" e, de quebra, o engenheiro agora pode falar para a sua irmã que o menor som que podemos ouvir é 1 dB (o que não é correto, continua sendo zero dB mas, pelo menos, 1 dB equivale a 0,1 Béis, o erro "não é tão grande" e fica bem mais fácil de explicar).

E todo mundo ficou feliz, e o deciBel é utilizado no mundo todo hoje como "medida de som". 

COMO O DECIBEL É CALCULADO?

Já sabemos que o menor som que podemos ouvir equivale a "1", mas os engenheiros gostam de 0,000 000 000 001 W/m2. Tendo então esse valor de referência (0 dB), podemos calcular as potências envolvidas e obter assim a quantidade de som que estamos escutando. Para fazer esse cálculo, usamos uma função matemática chamada de "logaritmo".

Quando a gente escuta a palavra "logaritmo", sentimos um frio na espinha, lembramos das noites mal dormidas tentando entender esse negócio e as notas baixas nas provas de Matemática no 2º grau. Mas o logaritmo nada mais é que a função contrária da potenciação, assim como a diminuição é o contrário da adição e a divisão é o contrário da multiplicação. Veja só:

Viu, não é difícil! E se na escola a gente não podia usar calculadora, agora podemos, o que torna tudo mais fácil ainda. Só que tem que ser uma calculadora científica, e não essas mais simples. E se você está pensando que não tem uma, saiba que todo mundo tem sim: a calculadora que vem no Windows pode ser simples ou pode ser … científica. Não acredita? Clique em Iniciar, depois em Programas, depois em Acessórios, depois em Calculadora. Ela vai surgir na sua tela. Clique agora no menu Exibir, e escolha a opção "Científica". E pronto! Repare na existência de um botão chamado "log", em rosa (deve ter sido uma mulher que projetou essa calculadora)!

Só mais um aviso: na escola, logaritmo é complicado porque pode ser feito em qualquer base (log 8 na base 2 = 3, porque 2³  = 8). Só que em som, é tudo em base 10. O uso da base 10 é tão comum que convencionou-se dizer que, quando não houver referência ao valor da 10, é porque ela é 10. Logo, falar ou escrever "log 100 na base 10" é a mesma coisa que "log 100". E note que, na calculadora do Windows, vem só a palavra "log" (em rosa). É log sempre na base 10. Ou seja, de posse da calculadora do Windows (ou de uma científica qualquer), calcular logaritmos é moleza. Vejamos, através de um exemplo:

Uma conversa "normal" entre duas pessoas situadas a 1 metro uma da outra envolve uma potência "1.000.000" (ou, como os engenheiros gostam, 0,000 001) maior que a potência de referência.

Então Log 1.000.000/1 (1.000.000 é a potência atual, dividido por 1, que é a potência de referência) na base 10 = 6, porque 10 elevado a 6 = 1.000.000

Ou como os engenheiros gostam: Log 0,000 001 / 0,000 000 000 001 (potência atual dividido por potência de referência).

A conta de divisão (0,000 001 / 0, 000 000 000 001) é feita primeiro (faça na calculadora científica do Windows, cuidado com o monte de zeros). O resultado obtido será 1.000.000

Agora, aperte o botão "log". Vai aparecer o resultado "6".

Só que o valor obtido não é expresso em deciBels, mas sim em Bels. Ora, o deciBel é 10 vezes o  Bel. Logo, é só acrescentar um zero (multiplicar por 10), e o valor obtido é 60 dB. Ufa, daí surgiu a primeira fórmula:

Tem um errinho nessa figura… será que você consegue perceber? Está abreviado db, mas o certo é dB

Repare só: o dB pode ser usado para expressar uma diferença entre duas potências, uma "real" e outra "de referência". E será muito utilizado assim. Mas…

"SABORES" DE POTÊNCIAS

Potências serão sempre medidas em Watts, que é o fruto da multiplicação da Voltagem (110V ou 220V) pela Amperagem consumida (o fusível de um equipamento é expresso em Amperes). Mas é comum vermos alguns termos diferentes, principalmente quanto aos amplificadores e caixas de som ou alto-falantes. Vemos nos manuais e propagandas desses aparelhos como tendo potências RMS de X Watts, ou ainda (nos aparelhos domésticos, não profissionais) como tendo potência PMPO de Y Watts, alto-falantes com potência Musical de Z Watts. Algumas vezes vemos a expressão "potência de tal tipo" ou "Watts de tal tipo", como no caso dos sons que podemos ouvir, expresso em  Watts Acústicos. Neste artigo não vem ao caso adentrar em o que é cada um desses Watts, mas, resumindo, precisamos saber que existem diversos "sabores" de Watts.

Responda rápido: qual é melhor: refrigerante de guaraná ou refrigerante de limão? Coca-cola ou Fanta Uva? Em refrigerantes, há também diversos sabores, e é complicado comparar um guaraná com um refrigerante de cola ou de uva. Apesar de ser tudo refrigerante, são todos feitos a partir de coisas bem diferentes, e o julgamento vai depender do gosto pessoal. Agora, comparar um refrigerante de guaraná com outro refrigerante de guaraná (por exemplo, Guaraná Antártica com Guaraná Kwat) é bem mais fácil, porque são do mesmo tipo.

A mesma coisa acontece com decibéis. O dB pode ser usado para expressar uma diferença entre duas potências, uma "real" e outra "de referência", mas sempre do mesmo tipo. Podemos comparar um chuveiro elétrico com outro pelas suas potências em Watts, um amplificador com outro pelas suas potências em Watts RMS, um som fraco com outro forte pelas seus Watts Acústicos. Sempre na mesma unidade de medida. Não dá para comparar Watts PMPO com Watts RMS nem com  Watts Acústicos. Mas é fácil comparar Watts com Watts, Watts RMS com Watts RMS, Watts Acústicos com Watts Acústicos – e extrair disso um resultado em decibéis.

Assim, tenha esse cuidado na hora de fazer os cálculos na calculadora: compare sempre potências na mesma unidade de medida.

 A partir desse ponto, já podemos ver aplicações práticas desse conceito.

APLICAÇÃO PRÁTICA DO CONCEITO DE DECIBEL

Falamos o tempo todo de potências, e existe um equipamento de som que lida com potências, que é o amplificador. Para trabalharmos com amplificadores, utilizamos muito o decibel.

a) Imagine um amplificador de sonorização que esteja produzindo um volume de 90 dB utilizando para isso 40W RMS. Se dobrarmos a potência, teremos então:

dB = 10 x log 80W/40W = 10 x log 2. Na calculadora do Windows, descobrimos que o log de 2 na base 10 é 0,301. Então

dB = 10 x 0,3 (arredondando) = 3 decibéis

Então, se com 40W RMS estamos produzindo 90dB, com 80W RMS estamos produzindo 93dB.

Repare só: se dobrarmos a potência, temos um incremento de 3dB no nível de volume. Poderíamos ter feito o contrário. Se reduzirmos a potência pela metade, o som vai ser diminuído de 3dB (se quiser fazer a conta, experimente calcular o log de 0,5, que é a relação das metades das potências).

b) Imagine agora um amplificador de sonorização que esteja produzindo um volume de 90 dB utilizando para isso 40W RMS. Se quadruplicarmos (4x mais) a potência, teremos então:

dB = 10 x log 160W/40W = 10 x log 4. Na calculadora do Windows, descobrimos que o log de 4 na base 10 é 0,602. Então

dB = 10 x 0,6 = 6 decibéis

Então, se com 40W RMS estamos produzindo 90dB, com 160W RMS estamos produzindo 96dB.

Repare só: se quadruplicarmos a potência, temos um incremento de 6dB no nível de volume. Já se reduzirmos a potência pela quarta parte, o som vai ser diminuído de 6dB (se quiser fazer a conta, experimente calcular o log de 0,25, que é a relação de um quarto das potências).

c) Imagine agora um amplificador de sonorização que esteja produzindo um volume de 90 dB utilizando para isso 40W RMS. Se multiplicarmos a potência por 10, teremos então:

dB = 10 x log 400W/40W = 10 x log 10. Essa conta nem precisa de calculadora, é "1", pois 10 elevado a 1 = 10. Então 

dB = 10 x 1 = 10

Então, se com 40W RMS estamos produzindo 90dB, com 400W RMS estamos produzindo 100dB.

Repare só: para conseguirmos mais 10 dB de som, precisamos multiplicar a nossa potência por 10! Ou, pelo contrário, se dividirmos a nossa potência por 10, nosso som vai cair em 10dB.

Em resumo:

Com o dobro da potência, nosso volume de som aumenta em 3dB
Com quatro vezes a potência, nosso volume de som aumenta em 6dB
Com 10 vezes a potência, nosso volume de som aumenta em 10dB

De outra forma:

Com metade da potência, nosso volume de som diminui em 3dB
Com quatro vezes menos potência, nosso volume de som diminui em 6dB
Com 10 vezes menos potência, nosso volume de som diminui em 10dB

Saber isso é muito importante, e deveria ser decorado por todos os técnicos. Isso vale muito dinheiro. Curioso porquê?

Lá na Bahia, "trio elétrico" bom é aquele que deixa todo mundo de ouvido doendo (pelo menos 120dB. Na verdade, existem trios elétricos que produzem até 135dB).

Um rapaz montou um trio elétrico, com 1.000 Watts de potência, e o som obtido com essa potência foi de 114dB, que não faz "nem cosquinha no ouvido" segundo os baianos. O rapaz voltou na loja para comprar mais amplificadores, e perguntou para o vendedor quanto ele precisava de potência a mais.

O vendedor indicou outra potência de 1.000 Watts para ele. Com isso, o trio elétrico passou a ter 2.000 Watts e ficou com 117dB de volume (dobro da potência corresponde ao aumento de 3dB). O som melhorou, "agora faz cosquinha no ouvido, mas só".

Insatisfeito, o rapaz voltou à loja e reclamou com o gerente do vendedor, que "diz que entende mas na verdade não sabe nada de som". O rapaz perdeu o emprego, e o gerente vendeu logo mais 8.000 Watts de potência para ele.

Com 10.000 Watts de potência, o som dele alcançou 124dB (com dez vezes a potência, o incremento é de 10dB), "agora tá doendo, agora esse som tá bom", o rapaz ficou satisfeito, e saiu elogiando o gerente, que "esse sim entende de som".

No final das contas – nenhum deles entende nada de som! Se com 1.000 Watts alcançamos 114dB, para alcançar 120dB (um incremento de 6dB) são necessários quatro vezes mais potência (4.000Watts). O rapaz comprou 6.000Watts inúteis. Um perdeu o emprego porque sabia de menos e outro jogou dinheiro fora. E isso é comum de acontecer.

Vamos ver outro exemplo. Olhe a frente de qualquer amplificador, nacional ou importado. Repare no controle de volume dele. Ao lado do potenciômetro (o botão de girar), existem marcas, nomeadas 0, -3, -6, -10, -15, etc. Algumas vezes aparecerá em números negativos (-3, -6), outras vezes não, mas sempre quer dizer a mesma coisa. Se Zero representa a potência máxima que o amplificador pode entregar, então a posição:

3 (ou – 3): representa metade da potência máxima do amplificador

6 (ou – 6): um quarto da potência máxima do amplificador

10 (ou -10): um décimo da potência máxima do amplificador

15 (ou -15): trinta e duas vezes menos que a potência máxima do amplificador

20 (ou -20): 100 vezes menos que a potência máxima do amplificador

Essas posições indicam a variação em dB da potência do amplificador. A partir do volume máximo (representado por Zero), o usuário pode ir ajustando o volume conforme desejado.

Imagine agora um amplificador que alimenta uma igreja em formato de "L", onde a nave principal tenha o dobro do tamanho da nave lateral. Se um dos canais do amplificador alimenta caixas na nave principal e o volume do canal está na posição "zero dB " (potência máxima), se o outro canal do amplificador alimentar a nave lateral (que tem a metade do tamanho), o volume  deverá estar na posição (-3dB), ou seja, jogando a metade da potência para as caixas, já que lá o tamanho também corresponde à metade. Quem sentar na nave principal ou na nave lateral terá sempre a sensação do mesmo volume de som.

Infelizmente, muita gente não conhece isso e deixa os volumes todos no máximo. O resultado é interessante: de um lado da igreja, o som está ótimo, do outro lado o som está alto.

Outro exemplo. Repare em uma caixa de som. Olhamos sempre a potência que ela agüenta: 100W RMS, 200W RMS, etc. Mas quanto de som essa caixa realmente pode "falar" no máximo?

Imagine uma caixa de som que suporta 100W RMS e que, quando recebe 1W RMS, consiga "falar" 90 decibéis (sensibilidade da caixa, expressa por quantos decibéis a caixa consegue "falar" quando recebe 1 Watt RMS, medido a 1 metro de distância – dB/1W/1m). O máximo de som que ela poderá "falar" é:

dB = 10 x log 100/1 = 10 x 2 = 20dB.

Esse é o valor da variação de som produzida por causa da variação entre as potências. Para achar o valor máximo que a caixa pode falar, devemos somá-lo com o valor inicial, o valor da sensibilidade da caixa: 90dB + 20dB = 110 dB. Para quem gosta de fórmulas…

dB máx = 10 x log (Potência máxima/1) + sensibilidade (medida em dB/1W/1m)

Essa caixa poderá falar "muito alto", mas nunca o suficiente para doer o nosso ouvido.

Vamos às lojas, comprar uma caixa de som. Encontramos vários modelos disponíveis. Podemos nos surpreender ao encontrar uma caixa de som de pouca potência e que "fala" mais que uma caixa bem mais potente.

Caixa 1 – 120W RMS com sensibilidade de 100dB/1W/1m.

Caixa 2 – 400W RMS com sensibilidade de 93 dB/1W/1m.

A caixa 1 consegue falar:

dB = 10 x log (120/1) + sensibilidade => dB =  10 x 2  + 100 => dB = 20 + 100. Logo, temos 120dB à potência máxima.

A caixa 2 consegue falar:

dB = 10 x log (400/1) + sensibilidade => dB = 10 x 2,6 + 93 => dB = 26 + 93. Logo, temos 119dB à potência máxima.

A caixa 1 fala 1 dB mais que a caixa 2. Mas, se repararmos nos preços, imaginem qual será o valor? Em geral, quanto mais potente mais cara a caixa é! Reparem como sensibilidade também é importante, e pouca gente presta atenção à esse parâmetro.

Outro exemplo. Os fabricantes de amplificadores, quando fazem os seus modelos, muitas vezes os projetam levando em consideração uma variação em decibéis. Repare na linha de amplificadores da Ciclotron:

DBK 720 – 180W RMS

DBK 1500 – 360W RMS (o dobro da potência do DBK 720, ou 3dB a mais)

DBK 3000 – 720W RMS (quatro vezes mais potência que o DBK 720, ou 6dB a mais)

DBK 6000 – 1440W RMS (oito vezes mais potência que o DBK 720, ou 9dB a mais)

Ou seja, mantendo-se tudo igual em um sistema de sonorização (caixas, microfones, etc), e trocando-se apenas os amplificadores, só pela potência deles já podemos prever o incremento em decibéis que vamos ter no som. Se com um amplificador DBK 720 alcançamos 100dB de potência de som (Watts acústicos), ao colocarmos um DBK 6000 vamos alcançar 109dB de potência de som.

Mais um exemplo.  Em sistemas de grande porte (milhares de Watts RMS), precisamos ter muito cuidado com o incremendo de amplificadores. Precisando de mais volume, um dono de PA quis trocar seu amplificador de 3.200 Watts. Foi a uma loja e o vendedor sugeriu a ele a troca por um amplifcador de 4.000 Watts. Segundo o vendedor, o novo amplificador tem 25% mais potência (800 Watts a mais) que o amplificador que o dono do PA já tinha. Segundo o vendedor, esses 25% a mais de potência vão resultar em 25% mais som, por "uma quantia bem módica e em suaves prestações".

Será que o vendedor pensou certo? Vejamos

dB =  10 x log 4000 W / 3200 W = 10 x log 1,25 = 10 x 0,09 = 0,9

Pois bem, os 25% a mais de potência, por "uma quantia bem módica e em suaves prestações", vão resultar em um mísero aumento de apenas 1dB no volume de som do PA. E é incrível que tem gente que ainda paga por quase nada!

CONCLUSÃO

Isso é só o princípio. Se repararmos, tudo em sonorização é baseado em decibéis: a mesa de som tem marcação em dB, equalizadores são marcados em dB, compressores. Daí não ter jeito: quem quer entender de áudio e sonorização tem que entender sobre dB. Decibéis valem dinheiro, muito!

Espero que você, leitor, tenha conseguido entender tudo! Tomara que sim, porque os engenheiros gostaram dessa história de decibel e complicaram muito mais (na verdade, a gente que sabe Matemática de menos). Mas fica para o próximo artigo.

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Revisão de Eliel "Spurgeon", futuro Engenheiro de Áudio
 

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Revisado em 07/Mar/2008

3 Comments on "O deciBel e seus mistérios – Parte I"

  1. Parabéns!!! Muito interessante!!! Muitos mexem com som e não sabem nada sobre dB, só falam em watts rms, só queria entender como ficaria a escala para 1,2 ou 3 watts rms em dB ex. ( 1 watt pra 1bB ) qual valor seria 1 watt em dB? Obg

  2. show finalmente algo que posso explicar a um leigo parabéns

  3. muito bom a primeira vez que leio algo que dá para explicar a um leigo

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