Algumas caixas de som

Quem trabalha com sonorização há bastante tempo sabe que dois tipos de equipamentos existem das mais variadas marcas e modelos, tamanhos e formas: microfones e … caixas de som.

Microfones e caixas acústicas tem muito mais semelhanças que diferenças. Ambos são transdutores – equipamentos que convertem um tipo de energia em outro. Microfones convertem energia sonora em energia elétrica e alto-falantes fazem o caminho contrário. Por causa disso, compartilham entre si muitas características. Por exemplo:

Em microfones, buscamos as seguintes especificações:
– Resposta de freqüência
– Curva de resposta de freqüência
– Sensibilidade
– Padrão de captação (cardióide, supercardióide, ominidirecional, etc)
– Agüentar altos níveis de volume (SPL) sem distorcer

Em caixas, buscamos:
– Resposta de freqüência
– Curva de resposta de freqüência
– Sensibilidade
– Padrão de dispersão sonora (como o som se espalha no ambiente)
– Potência máxima admissível.

Vamos falar rapidamente sobre cada um desses itens:

Resposta de Freqüência

Obviamente, uma caixa (ou microfone) que consiga “falar” (ou captar) de 20Hz a 20KHz – ou o mais próximo disso – seria o ideal. Mas da mesma forma que raramente utilizamos microfones que abrangem todo o espectro audível, é raro encontrar uma caixa que faça o mesmo. As maiores dificuldades residem principalmente nos sons graves, que dependem fortemente das características de construção do woofer (em geral, quanto maior o woofer mais grave ele consegue “falar”).

Curva de resposta de freqüência

Aqui há uma grande diferença entre microfones e caixas de som. Em microfones, procuramos aqueles cuja curva de resposta de freqüências tenha um “destaque” em uma ou mais faixas (graves, médios, agudos), de forma a ressaltar o som que estamos captando. Em caixas, ao contrário, procuramos a resposta de freqüência mais linear (mais plana) possível, de forma que não “destaque” uma faixa mais que outra.

Se em microfones é fácil encontrar nos manuais o gráfico da curva de resposta, em caixas de som os fabricantes costumam apresentar isso de outra forma, como nos exemplo abaixo:

Caixa 1 – Resposta de Freqüência de 60Hz a 17KHz, +/- 3dB (ou seja, de 60Hz a 17KHz variando em 6dB)
Caixa 2 – Resposta de Freqüência de 50Hz a 20KHz, +0 dB – 10dB (ou seja, a variação máxima dos sons é de 10dB)

Obviamente, quanto menor for a variação, mais linear (e melhor) a caixa é. Se precisarmos fazer um “destaque” de freqüências, fazemos no equalizador gráfico. Mas em produtos pouco lineares, não há equalizador que dê jeito (muito trabalho e o resultado fica aquém do esperado)!

Conseguir uma boa linearidade é algo difícil e complicado, demanda altos investimentos por parte do fabricante. Por isso, muitos reservam apenas seus melhores modelos para os testes de linearidade.

A linearidade é a única coisa que realmente atesta a qualidade sonora de uma caixa. Se 10 pessoas ouvirem o som proveniente de uma caixa, teremos três ou quatro opiniões diferentes. Uns vão achar a caixa “sem peso” (sem graves), outras vão achar que médios em excesso, outras vão reclamar de falta de agudos. Quem estará certo? Todos, já que “audição” é algo subjetivo, pode incluir gostos pessoais. Quando o fabricante atesta a linearidade da caixa, as dúvidas sobre a qualidade sonora se dissipam. As pessoas podem até acreditar que “falta” ou “sobra” alguma coisa, mas podemos saber que isso é gosto pessoal, ou erro de equalização, mas não defeito da caixa.

Dispersão sonora

Se microfones têm o seu padrão de captação, as caixas têm o contrário, um padrão de dispersão do som que produzem. Esta dispersão se aplica principalmente quanto às médias e altas freqüências, e depende muito da configuração da corneta que equipa a caixa.

Lembrando que a dispersão é importante por questões de inteligibilidade. Os sons graves (que são principalmente ominidirecionais) dão a sensação de “peso, força” ao que estamos ouvindo, mas são os médios e agudos que garantem o entendimento do que está sendo dito, cantado.

A escolha da dispersão de uma caixa é mais complicado do que parece. Ela depende da forma que a caixa será usada, do seu posicionamento em relação ao público. Mas em geral, quanto maior a dispersão sonora, melhor, pois permite alternativas de posicionamento.

Sensibilidade

Da mesma forma que é fácil notar que alguns microfones dão mais “ganho” que outros (captam mais som), há caixas que “falam” mais que outras. Em PA, em geral quanto maior a sensibilidade, melhor a caixa é. Exemplo:

Caixa 1 – Sensibilidade = 98 dB SPL / 1 W / 1 m. Ou seja, a caixa produz 98 dB SPL (som) quando recebe 1 Watt RMS, medido a 1 metro de distância.

Caixa 2 – Sensibilidade = 92 dB SPL / 1W / 1 metro.

Sensibilidade é importante porque afeta diretamente os amplificadores que serão necessários para “empurrar” as caixas. Os exemplos acima têm 6 dB de diferença entre uma caixa e outra. Para fazer essas duas “falarem” a mesma quantidade de som, a segunda precisará ser ligada a um amplificador 4x mais potente!

Potência suportada

Microfones agüentam um limite máximo de som sobre eles. Ultrapassado esse limite, começam a distorcer. Microfones de primeira linha conseguem agüentar níveis de 120 dB SPL ou mais (alguns suportam até 150 dB SPL) sem distorcer, enquanto microfones simples distorcem com valores baixos, 100, 105 dB SPL.

Em caixas de som, não temos essa situação de distorção, mas sim a máxima potência RMS admissível pela caixa sem sofrer danos. Existem produtos de alguns poucos Watts a várias centenas de Watts. Devemos escolher a potência de acordo com a utilização. Não dá para utilizar caixas feitas para sonorização ambiente (5W a 10W) em um evento com 1000 pessoas. Da mesma forma, é exagero utilizar uma de 100W para sonorização ambiente, por exemplo.

Feita essa introdução (mais que necessária), vamos dar uma olhada em algumas caixas com as quais trabalho ou já tive oportunidade de trabalhar para inúmeros eventos. Lembrando que são usadas no chão ou em tripés, pois não há condições técnicas para trabalhar com sistema fly (o que seria muito melhor).

Yes Y-15

Feita por uma empresa brasileira de São Paulo sob licença da Yamaha, este é um modelo adaptado da Club Series, caixa que fez muito sucesso nos EUA. É equipada com driver D210Ti Selenium e um woofer de 15″ importado (não há etiqueta da marca no woofer).

Os dados técnicos do manual se perderam há muito, e o que sobrou é o que está escrito na própria caixa:
Impedância 8 Ohms
Potência: 500W Programa Musical (250 Watts RMS)
Crossover: 2000Hz (adequado ao D210Ti).

Gostamos muito dessa caixa. Tem um “sonzão” maravilhoso, e ótima sensibilidade! É leve, apenas 22kg, por utilizar aglomerado de madeira. O que é ruim, pois é um material muito frágil, mas isso é compensado pela existência de reforços internos, acabamento acarpetado e cantoneiras de metal.

Uma coisa ruim é o fato de ter conectores apenas XLR, enquanto temos outros modelos com conectores P10. Por questões de compatibilidade dos cabos, adaptamos conectores P10 nela também. Speakon seria a melhor solução, mas o conector é muito caro.

Para não tirar a originalidade da caixa, utilizamos conectores Neutrik Combo (XLR ou P10 no mesmo conector), que se mostraram frágeis, não agüentando muito. A solução foi fazer o furo e colocar jacks P10.

Já quis comprar essas para mim, mas novas nunca achei. Já encontrei modelos de 12″ em lojas do Rio de Janeiro e até da minha cidade, mas eram apenas sobra de estoque.

Certa vez 4 dessas atenderam 8.000 pessoas em um ginásio de esportes em uma evangelização. Evidente que a boa acústica do lugar ajudou muito.

Yorkville Pulse 3215

A Yorkville é uma empresa canadense, relativamente desconhecida no Brasil. Era importada por uma empresa com filiais em Minas Gerais e Espírito Santo, onde a marca chegou a ser bem vendida. A empresa parou a importação da marca, mas quem quiser saber mais basta acessar o site www.yorkville.com

À primeira vista, essas Pulse impressionam pelo tamanho! São grandes, mais de 1,5m de altura por mais de 0,5m de largura e profundidade. São 52kg, por isso ela vem com rodízios para transporte.

Pela foto não dá para notar direito, mas ela tem 2 falantes Eminence de 15″ mais um driver RCF (uma das melhores marcas do mundo para alto-falantes) e … do lado do driver, dois tweeters LeSon piezoelétricos TLC-1!!!

Na primeira vez que vi essa caixa, acreditei que alguém tinha “matado” a caixa ao colocar tweeters que aqui no Brasil são encontrados em qualquer eletrônica por R$ 15,00! Mas são originais de fábrica!!! Eles ajudam o driver e a caixa a ter uma ótima linearidade. Basta escutar e perceber que o som dela é fantástico!

Vou apresentar as especificações técnicas no original, em inglês, com comentários em português entre parênteses:

– System Type: 3-Way Trapezoid (sistema 3 vias,  woofer, driver e tweeter)
– Program Power (Watts): 500 (ou seja, 250 Watts RMS, a mesma que as da Yes)
– Nominal Impedance (Ohms): 4 (caixas com dois woofers em geral tem impedância de 4 Ohms)
– Sensitivity (dB @1Watt/1m): 100 (altíssima, melhor que nas Yes)
– Max SPL (dB): 127 (o máximo de som que ela consegue produzir)
– Frequency Response (Hz +/- 3db) 50 – 18,000 (atende bem dos graves aos agudos. Linearidade excepcional).
– HF Dispersion (°H x °V) 90x 40 (ângulo de dispersão sonora das altas freqüências, muito bom).
– Inputs – 1/4″ Jack  and Speakon 4-pin  (entradas P10 e Speakon)
– Dimensions (DWH cm): 52.1×66.8×102.8 (profundidade, largura e altura).
– Weight (lbs/kg) 115/52 (peso)

Duas dessas já atenderam eventos para 5.000 pessoas em um ginásio. Elas “falam muito”, são muito lineares, tudo o que podemos esperar de uma empresa de primeira linha. Já fui em um casamento onde a banda tocou pop/rock nessas, com som excelente.

Para proteger o driver, a Yorkville desenvolveu um engenhoso sistema. O divisor de freqüências tem uma lâmpada halógena (dessas de farol de automóveis) ligada junto com o driver. Se a potência for excedida, quem queima é a lâmpada, que tem baixo custo de reposição (e é encontrada em qualquer lugar). Muito bom!

O único grande defeito delas, além do tamanho e peso (pelo menos 2 pessoas para movimentá-las) é o fato de serem fabricadas em madeira do tipo “pinus”, madeira macia extremamente apreciada por um inseto que não existe no Canadá (por causa do frio): cupins! É necessário sempre ficar vigiando.

Mackie S-500

Já viram perfeição em forma de caixas acústicas? Se não viram, deixem-me apresentar a Mackie S-500.

Resposta de Freqüência (-10 dB): 50Hz – 22KHz
Resposta de Freqüência (-3 dB): 75Hz – 20KHz
Cobertura Horizontal (-6dB): 75º de 1KHz a 10KHz
Cobertura Vertical (-6dB): 65º  de 1KHz a 10KHz
Sensibilidade (1W @ 1m): 100dB
Máximo SPL: 127 dB
Impedância Nominal: 8 Ohms
Potência: 250 W RMS
Conectores: 1 P10 e 1 Speakon.
Dimensões: (A,L,P): 82 x 49 x 46 cm
Peso: 34 Kg

Sistema de proteção que desliga a caixa em caso de excesso de potência. Acontecendo isso, basta apertar o RESET.

Os falantes são todos RCF (aliás, a Mackie é dona da RCF), a caixa é ainda mais linear que a Yorkville (variação de 3dB da Mackie, 6dB da Yorkville), tem mesma sensibilidade e potência, e é menor e mais leve. Absolutamente fantástica!

Depois de falar nessas caixas de 1a. linha, vamos a algumas nacionais.

Leacs modelo “maior”

Essas são antigas, do ano 2000, por isso não é possível se ater a um modelo específico do fabricante.  O revendedor local colocou a marca dele (está tampado), mas a serigrafia no woofer não deixa mentir sobre o fabricante original da caixa.

É uma caixa de duas vias. Possui woofer de 15″ cuja etiqueta do fabricante original foi retirada. O driver é um 4625DTI da Oversound, e há um divisor de freqüências Nenis DF-302Ti, que suporta até 300W RMS. Logo, a potência da caixa (não há informações técnicas do modelo) deve estar próxima a esse valor.

Das citadas até agora, é a que menos “fala” (menor sensibilidade). Ela é muito grande (90cm de altura por 45 de largura por 42 de profundidade) e peso de 28kg. Ela veio com dois conectores XLR (macho e fêmea), e havia muitos problemas por falta de padronização com as Yes (Yes pino 1 = negativo, Leacs pino 2 = negativo). A solução foi colocar um jack P10 em todas.

O som é bom e razoavelmente linear. O problema não é a sonoridade, mas os acabamentos. As alças – de plástico – não agüentam o peso da própria caixa e quebram facilmente. Pior é a corneta de fibra. O driver 4625 é pesadíssimo (são 4,5kg), e não há apoio de madeira para o mesmo (nas Yes e Yorkville, que já abri, há). Todo o peso é suportado apenas pela corneta. Logo, qualquer pancada maior e a corneta se quebra!! Ainda que caixas não sejam para dar pancada nenhuma, elas acontecem, e o fabricante deveria ter pensado nisso. Um erro tremendo.

Quando os outros modelos estão disponíveis, estas são a nossa última opção de escolha. Mas pelo menos a qualidade sonora é razoável. Para quem gosta de “pancadão”, o grave dela é bem legal, melhor que o da Yes.

Leacs modelo “menor”

Não sei qual o fabricante dessa caixa específica, mas quase certeza é Leacs, fabricada também por volta do ano 2000. O projeto é muito semelhante ao da caixa Leacs maior, com woofer de 15″ (também com a etiqueta retirada), driver Oversound, 2545Dti e o mesmo divisor da Nenis (DF-302Ti). Só o tamanho, a forma do gabinete e o peso mudam. O som tem menos graves que a “irmã maior”, mas bem agradável. As medidas reduzidas as tornam muito mais fáceis de carregar. Preferimos usar estas às maiores.

Caixa pequena

Esta até que é bem construída, com boa madeira e pintura. Extremamente compacto, o gabinete abriga um woofer de 12″ da marca ETM (alguém já ouviu falar?). No falante (nesse deixaram a etiqueta) há um telefone de São Paulo (tentei entrar em contato, fui mal atendido e ninguém sabia dar informações) e as inscrições portentosas – 800 Watts! Só se for PMPO! Mas o ímã é grande e deve agüentar pelo menos uns 150 ou 200W RMS.

Eu queria conhecer mesmo é quem “projetou” essa caixa. Junto com esse woofer de 800W havia um “tweeterzinho” (“zinho” mesmo) de cone de papel, da mesma marca ETM, que deve agüentar no máximo uns 20W RMS. Essas foram utilizadas por um tempo para PA, e o resultado não podia ser outro: todos os tweeters queimados e muita reclamação do público atendido por elas dizendo que o som estava embolado. Acabaram todas literalmente “encostadas”.

Para resolver, instalamos um supertweeter (de marca duvidosa também, HB, mas pelo menos custou barato), um resistor de 10 Ohms (para atenuar a diferença de sensibilidade) e um novo capacitor (para adequar o corte de frequência), e ficou outra coisa, muito melhor. Hoje são usadas para ambientes menores e/ou voz apenas.

Dado o tamanho compacto da caixa, o falante nem tem como dar muito grave (se é que ele faz isso), mas pelo menos agora ela está decente.

Caixa “Fly”

Essa caixa é feita para ser instalada em sistema fly, possuindo os reforços internos para isso. Caixas para fly tem seu peso suportado pelas ferragens, não pela madeira. É montada por uma eletrônica da minha cidade.

Deixei este modelo para o final, pois gostaria de propor que os próprios leitores avaliem a sua qualidade sonora, a partir dos seus componentes. Vai tomar apenas 10 minutos do tempo de cada um, e com certeza será um excelente exercício de aprendizagem.

Para tanto, é necessário ler as informações contidas no seguinte texto: http://www.somaovivo.mus.br/downloads/divisores_capacitores.zip

Não se assustem com a matemática rebuscada (e os gráficos complicados) no início do artigo. Logo depois o autor coloca tabelas de fácil entendimento.

A caixa tem os seguintes componentes:

– Woofer de 15″ marca Magnum, 8 Ohms, sensibilidade de 97dB/1W/1m, resposta de freqüência de 40Hz a 4KHz.
– Driver Hinor HDI-400, 8 Ohms, sensibilidade de 109dB/1W/1m, resposta de freqüência de 400Hz a 8KHz
– SuperTweeter Hinor 5HI320, 8 Ohms, sensibilidade de 108dB/1W/1m, resposta de freqüência de 4KHz a 20KHz.

O driver está ligado a um capacitor de 22uF, e o supertweeter está ligado a um capacitor de 2,2uF, e é tudo. Não é necessário saber a potência dos falantes envolvidos.

Observação: dados retirados dos manuais dos equipamentos em papel, não existe essas informação nos sites. A partir desses dados, responda:

a) o que devemos esperar do som dessa caixa em termos de linearidade / qualidade sonora?
b) há algo que podemos melhorar? Se sim, o que fazer?

Não vale olhar a resposta de quem já respondeu… “perca” esse tempo, e ganhe conhecimentos importantes.

2 Comments on "Algumas caixas de som"

  1. Olá Fernando!
    Obrigado pelas informações deste artigo.
    Recentemente me foram oferecidas 2 caixas YES YM 15-e, porém nao consigo achar nada de informações sobre elas. Até coloquei no forum para ver se alguem poderia ajudar-me, mas só aumentou a minha dúvida…rs
    Gostaria de saber se já teve contato com esse modelo e se de fato YES é uma marca confiável ou falsificação barata…
    Obrigado desde já.
    Paz.

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